Blog I'unitá Brasil

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segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Salário mínimo na ditadura e hoje

Ele é um vetor de enorme importância para a sociedade brasileira. Quando é reduzido, promove degradação distributiva e desigualdade social



por João Sicsú



O salário mínimo foi instituído por Getúlio Vargas em 1940. A cada 1º de maio é comemorado o dia do trabalhador e também o dia do salário mínimo. Há 74 anos, em discurso na cidade do Rio de Janeiro, o presidente anunciou: “...assinamos hoje um ato de incalculável alcance social e econômico: a lei que fixa o salário mínimo para todo o país”.
Desde a sua criação até o golpe de 1964, três presidentes defenderam o valor real do salário mínimo: Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e João Goulart. Neste período, Eurico Gaspar Dutra, que governou o Brasil de 1946 a 1951, foi o grande adversário do salário mínimo, deixando o seu valor ser corroído pela inflação. No governo de Gaspar Dutra, não foi concedido qualquer reajuste ao salário mínimo, que perdeu 40% do seu valor real.
O salário mínimo alcançou um de seus valores reais mais altos exatamente um mês antes do golpe de março de 1964. Seu valor em fevereiro daquele ano, corrigido monetariamente para os dias de hoje, era um pouco superior a mil reais. Desde o início da ditadura até o seu fim, a tendência foi de perda do poder de compra do salário. Durante a ditadura, os ministros da Fazenda mais proeminentes foram: Otávio Gouveia de Bulhões, Antônio Delfim Netto e Mário Henrique Simonsen.
No início dos anos 1960, apesar da inflação, João Goulart promoveu reajustes para defender o salário mínimo. No dia 24 de fevereiro de 1964, dias antes do golpe, o presidente João Goulart deu aumento de 100% para o valor do salário mínimo. No ano de 1963, já havia concedido aumento superior a 56%. Contudo, acreditava que o remédio definitivo seria a derrubada da inflação. No histórico comício de 13 março de 1964 na Central do Brasil, bradou:
Governo nenhum, trabalhadores, povo nenhum, por maior que seja seu esforço, e até mesmo o seu sacrifício, poderá enfrentar o monstro inflacionário que devora os salários, que inquieta o povo assalariado, se não forem efetuadas as reformas de estrutura de base exigidas pelo povo e reclamadas pela Nação.”
Com o golpe de 1964 e a implantação da ditadura, um novo modelo econômico foi imposto. O pacto entre os militares e os empresários era pela promoção do crescimento econômico e realização de investimentos públicos e privados. E assim foi feito. Mas foi um modelo concentrador de renda que dilapidou o salário mínimo. A ideia que justificava esse modelo foi expressa pelo então ministro Delfim Neto que dizia que era necessário, primeiro, fazer o bolo crescer para, depois, distribuí-lo.
O ambiente de repressão política e de sindicatos sufocados favoreceu o arrocho salarial, incluindo aí o salário mínimo. E, de fato, o bolo sugerido pelo ministro Delfim cresceu. O setor público fez grandes investimentos à custa da elevação do endividamento externo. O setor privado também fazia grandes investimentos financiados pela folga financeira devido à redução de custos que representava a folha de pagamento – além de favores concedidos pelos militares a determinados setores econômicos. O arrocho salarial não era uma maldade a mais do regime ditatorial, era sim um vetor importante do modelo econômico de crescimento e investimento. A ditadura durou 21 anos e, neste período, o salário mínimo perdeu, em termos reais, mais de 50% do seu valor.
Durante a ditadura, a concentração de renda aumentou de forma extremamente significativa. A inflação, que era alta nos tempos de João Goulart, disparou. Além disso, o Brasil vivenciou grandes movimentos migratórios, do norte e do nordeste para São Paulo e Rio de Janeiro e do campo para as cidades. Sem empregos, renda e direito à moradia nas cidades, que representavam sonho e esperança, as favelas surgiram como alternativa e como problema urbano e social.
O salário mínimo é um vetor de enorme importância para a sociedade brasileira. Quando é reduzido, promove degradação distributiva e desigualdade social. E o contrário é verdadeiro. Portanto, grande parte das conquistas sociais dos anos 2000 pode e deve ser atribuída à política atual de recuperação e valorização do salário mínimo, que hoje está no patamar do início dos anos 1960. Apesar da boa política de valorização do seu valor, ainda está no meio do caminho de sua recuperação e está longe do patamar da dignidade.
Existe uma ameaça no ar. A regra atual de reajuste do salário mínimo terminará em 2015. Conselheiros do PSDB e da oposição orientam seus seguidores para pressionar pela quebra da regra porque o salário mínimo estaria alto demais. Estaria retirando competitividade das empresas. Pode-se perceber: o vocabulário é mais moderno. Mas é a velha ideia dos tempos da ditadura: menos salários para haver mais investimentos.
Última mensagem: qualquer central sindical somente deveria apoiar um candidato a presidente em 2014 se e quando houvesse o compromisso de manutenção da regra atual que recuperou, nos últimos 10 anos, em mais de 70% o valor real do salário mínimo. O objetivo: manutenção da trajetória de recuperação do salário mínimo. A meta: um salário mínimo digno como vetor de mais justiça e igualdade social.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

CADÊ A HONESTIDADE INTELECTUAL, SENADOR AÉCIO NEVES?

por Jean Wyllys:
Em uma tentativa de justificar a negativa do PSDB a acompanhar o pedido de investigação contra Eduardo Cunha no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados, o presidente da sigla e candidato presidencial derrotado nas últimas eleições, Aécio Neves, deu mais uma prova de sua hipocrisia, comparando a atitude dos tucanos com relação a Cunha com a negativa do PSOL a apoiar o impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Como se fosse a mesma coisa, ele disse que, assim como o PSDB não assinou a representação do PSOL contra Cunha, o PSOL não assinou os pedidos de impedimento da presidenta.
Alguém deveria explicar ao ex-candidato que Cunha está formalmente denunciado pela Procuradoria Geral da República, com provas robustas, pelos crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão ilegal de divisas. Também foi acusado por delatores da operação lava-jato de ter recebido uma propina de 5 milhões de dólares e a justiça suíça informou à justiça brasileira que tem contas secretas nesse país com movimentações de dezenas de milhões, irrigadas por transferências de lobistas ligados a empresas com contratos suspeitos da Petrobrás. Alguém deveria avisar ao senhor Aécio que Cunha mentiu em depoimento dado numa CPI, afirmando que não possuía contas no exterior. Alguém deveria lembrar a Neves que não é a primeira vez que Cunha se envolve em escândalos de corrupção: é assim desde o primeiro cargo que ocupou no Estado, durante o governo Collor, como colaborador de PC Farias.
E alguém deveria explicar ao senhor Aécio que a presidenta Dilma, independentemente da minha opinião sobre seu governo, que acho muito ruim, ou sobre seu programa econômico, que é exatamente o do PSDB (Aécio deveria estar feliz!), não foi acusada de crime algum. Não existe acusação e muito menos provas de que a presidenta tenha participado de qualquer ato de corrupção ou tenha se enriquecido de forma ilícita. E não há, até agora, na opinião do PSOL, motivos constitucionais para o impeachment.
Tem gente que não entende o que significa o impedimento de um/a presidente/a da República. Não é algo que se justifique apenas porque eu não gosto do governo. É um remédio gravíssimo, de última instância, que se aplica em situações de extrema excepcionalidade, quando se dão as situações previstas na constituição e na lei. Não é o caso até o momento.
Se eu não gosto do governo (e eu não gosto!), faço oposição republicana no parlamento e nas ruas: questiono, voto contra os ajustes fiscais (que os tucanos votam a favor), repudio as alianças com o fundamentalismo e o conservadorismo (que os tucanos também praticam), tento mudar as regras que permitem o financiamento empresarial de campanha e dão lugar a esquemas como o Petrolão (regras que os tucanos usam e apoiaram na contrarreforma política), denuncio as políticas repressivas contra trabalhadores, indígenas, pobres (as mesmas dos tucanos). E milito para construir uma alternativa política capaz de derrotar tudo isso que me faz ser oposição à esquerda do governo Dilma (tudo isso em que esse governo parece tucano). Contra os ajustes, os retrocessos, a política anti-trabalhista e o conservadorismo, o PSDB não é oposição ao governo Dilma!
O que os tucanos querem é, apenas, derrubar a Dilma para aplicarem eles mesmos essa política que o PSOL critica. Mas uma oposição republicana e democrática não tenta derrubar um governo sem motivos constitucionais, só para ocupar seu lugar. E muito menos faz isso aliado a um deputado acusado de corrupção e lavagem de dinheiro e com contas milionárias secretas na Suíça. Essa é a diferença entre o tipo de oposição que faz o PSDB e o tipo de oposição que faz o PSOL.


 Para quem está por fora... 

"O senador Aécio Neves (PSDB-MG) sinalizou que o PSDB não deve endossar o pedido de investigação por quebra de decoro parlamentar do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). De acordo com o senador, que é presidente n
acional do partido, esta é uma questão para a bancada da Câmara resolver.

Além disso, Aécio enfatizou que o PSOL, partido que ao lado da Rede decidiu representar contra Cunha no Conselho de Ética da Câmara, não tomou iniciativa de endossar o pedido de afastamento da presidente Dilma Rousseff.

“Acho que esta é uma decisão da Câmara. Há ali uma cobrança para que o PSOL também pudesse endossar o pedido de afastamento da presidente da República. Mas esta não é a questão essencial”, disse o senador em entrevista nesta quinta-feira (15)".

CONSELHO DE ÉTICA: VOCÊ SABE PARA QUE SERVE?

por Jean Wyllys em 13 de outubro de 2013:



O Conselho de Ética da Câmara dos Deputados, criado em outubro de 2001, é o órgão encarregado do procedimento disciplinar para aplicação de penalidades em caso de algum parlamentar ferir as normas de decoro ou o Código de Ética. É composto por 21 membros titulares e igual número de suplentes e é regido por um regulamento próprio.
Na legislatura passada, por diversas vezes, criticamos a postura do Conselho, que se punha ocioso ou indiferente diante de sérias denúncias contra parlamentares que feriam flagrantemente o decoro, desrespeitando os preceitos básicos dos direitos humanos e minorias e comportando-se no Parlamento como se estivessem nos quintais de suas casas.
Hoje (13 de outubro) o PSOL encaminhou ao Conselho de Ética a representação contra Eduardo Cunha por quebra de decoro parlamentar. Agora está nas mãos de seus membros não engavetar mais esse processo, não mais procrastinar decisões, tal como já fizeram tantas vezes com os diversos processos apresentados contra um viúvo da ditadura e contra o vendilhão do tempo que pede a senha de cartão de crédito para seus fiéis
Ainda que o sistema político se mantenha blindado, a cultura política desse país está mudando para o nosso bem. A maioria de vocês está atenta a nossa atuação aqui na Câmara dos Deputados e fiscalizando as ações de cada um de nós. Chegou a hora de vocês agirem diretamente e não deixarem que o presidente da Câmara saia impune diante das diversas provas que se acumulam a cada dia sobre seus esquemas de corrupção e lavagem de dinheiro.
Abaixo está a relação de todos os membros titulares e suplentes do Conselho (atenção ao gênero, à etnia e à bancada ao qual pertencem os membros do conselho). Envie um e-mail ou ligue no gabinete do deputado ou deputada do seu Estado, pergunte sua posição sobre o processo de cassação contra e Cunha e manifeste claramente que você não quer ver o processo ser jogado numa gaveta.
Os deputado e deputadas devem agir dentro dos princípios da ética e do decoro e precisam limpar a imagem de desmoralização que paira sobre o Conselho de Ética.
*
Membros do Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara dos Deputados:
http://www2.camara.leg.br/a-camara/eticaedecoro/composicao
Presidente: José Carlos Araújo (PSD/BA)
-> (61) 3215-5232 | dep.josecarlosaraujo@camara.leg.br
1º Vice-Presidente: Sandro Alex (PPS/PR)
-> (61) 3215-5221 | dep.sandroalex@camara.leg.br
2º Vice-Presidente: Fausto Pinato (PRB/SP)
-> (61) 3215-5562 | dep.faustopinato@camara.leg.br
TITULARES
Arnaldo Faria de Sá PTB/SP (Gab. 929-IV)
-> (61) 3215-5929 | dep.arnaldofariadesa@camara.leg.br
Cacá Leão PP/BA (Gab. 320-IV)
-> (61) 3215-5320 | dep.cacaleao@camara.leg.br
Erivelton Santana PSC/BA (Gab. 756-IV)
-> (61) 3215-5756 | dep.eriveltonsantana@camara.leg.br
Mauro Lopes PMDB/MG (Gab. 844-IV)
-> (61) 3215-5844 | dep.maurolopes@camara.leg.br
Paulo Azi DEM/BA (Gab. 635-IV)
-> (61) 3215-5635 | dep.pauloazi@camara.leg.br
Ricardo Barros PP/PR (Gab. 412-IV)
-> : (61) 3215-5412 | dep.ricardobarros@camara.leg.br
Washington Reis PMDB/RJ (Gab. 856-IV)
-> (61) 3215-5856 | dep.washingtonreis@camara.leg.br
Wladimir Costa SD/PA (Gab. 343-IV)
-> (61) 3215-5343 | dep.wladimircosta@camara.leg.br
Leo de Brito PT/AC (Gab. 619-IV)
-> (61) 3215-5619 - | dep.leodebrito@camara.leg.br
Sérgio Brito PSD/BA (Gab. 638-IV)
-> (61) 3215-5638 | dep.sergiobrito@camara.leg.br
Valmir Prascidelli PT/SP (Gab. 837-IV)
-> (61) 3215-5837 | dep.valmirprascidelli@camara.leg.br
Vinicius Gurgel PR/AP (Gab. 852-IV)
-> (61) 3215-5852 | dep.viniciusgurgel@camara.leg.br
Wellington Roberto PR/PB (Gab. 514-IV)
-> (61) 3215-5514 | dep.wellingtonroberto@camara.leg.br
Zé Geraldo PT/PA (Gab. 266-III)
-> (61) 3215-5266 | dep.zegeraldo@camara.leg.br
Betinho Gomes PSDB/PE (Gab. 269-III)
-> (61) 3215-5269 | dep.betinhogomes@camara.leg.br
Júlio Delgado PSB/MG (Gab. 323-IV)
-> (61) 3215-5323 | dep.juliodelgado@camara.leg.br
Nelson Marchezan Junior PSDB/RS (Gab. 250-IV)
-> (61) 3215-5250 | dep.nelsonmarchezanjunior@camara.leg.br
Marcos Rogério PDT/RO (Gab. 930-IV)
-> (61) 3215-5930 | dep.marcosrogerio@camara.leg.br
SUPLENTES
Covatti Filho PP/RS (Gab. 228-IV)
-> (61) 3215-5228 | dep.covattifilho@camara.leg.br
Genecias Noronha SD/CE (Gab. 244-IV)
-> (61) 3215-5244 | dep.geneciasnoronha@camara.leg.br
Onyx Lorenzoni DEM/RS (Gab. 828-IV)
-> (61) 3215-5828 | dep.onyxlorenzoni@camara.leg.br
Professor Victório Galli PSC/MT (Gab. 539-IV)
-> (61) 3215-5539 | dep.professorvictoriogalli@camara.leg.br
Ronaldo Carletto PP/BA (Gab. 262-IV)
-> (61) 3215-5262 | dep.ronaldocarletto@camara.leg.br
Sérgio Moraes PTB/RS (Gab. 258-IV)
-> (61) 3215-5258 | dep.sergiomoraes@camara.leg.br
Vinicius Carvalho PRB/SP (Gab. 356-IV)
-> (61) 3215-5356 | dep.viniciuscarvalho@camara.leg.br
Assis Carvalho PT/PI (Gab. 909-IV)
-> (61) 3215-5909 | dep.assiscarvalho@camara.leg.br
Capitão Augusto PR/SP (Gab. 273-III)
-> (61) 3215-5273 | dep.capitaoaugusto@camara.leg.br
Jorginho Mello PR/SC (Gab. 329-IV)
-> (61) 3215-5329 | dep.jorginhomello@camara.leg.br
Odorico Monteiro PT/CE (Gab. 582-III)
-> (61) 3215-5582 | dep.odoricomonteiro@camara.leg.br
Ricardo Izar PSD/SP (Gab. 634-IV)
-> (61) 3215-5634 | dep.ricardoizar@camara.leg.br
Bebeto PSB/BA (Gab. 541-IV)
-> (61) 3215-5541 | dep.bebeto@camara.leg.br
Subtenente Gonzaga PDT/MG (Gab. 750-IV)
-> (61) 3215-5750 | dep.subtenentegonzaga@camara.leg.br
Eliziane Gama REDE/MA (Gab. 205-IV)
-> (61) 3215-5205 | dep.elizianegama@camara.leg.br

O acordo Trans Pacífico (TPP) e o liberalismo de botequim

Tendo dificuldades para fazer valer plenamente seu ponto de vista na Organização Mundial do Comércio, os EUA tentam outras vias para impor seus interesses.



por Paulo Kliass
Com a nossa pauta tupiniquim absolutamente tomada pelas notícias envolvendo o golpichment, o austericídio e as contas suíças milionárias do terceiro colocado na linha sucessória da República, é compreensível que muito pouco espaço esteja sendo conferido a uma importante articulação levada a cabo pela diplomacia norte-americana.

Trata-se da Parceria Trans-Pacífica (TPP, da sigla em inglês “Trans-Pacific Partnership”), uma estratégia em desenvolvimento que pretende ocupar o espaço vazio ainda existente nas relações econômicas internacionais. O governo do Presidente Obama obteve a aprovação de um sistema de “fast track” por parte do Congresso para o assunto, fato que garante maior agilidade ao Poder Executivo na condução das negociações e no desenho final do modelo de diplomacia econômica em curso.

O acordo em gestação prevê a inclusão de temas amplos, como o comércio de bens e de serviços, além de propriedade intelectual, patentes e direitos autorais. Como o próprio nome deixa a entender, os 11 países signatários iniciais estão todos voltados para a costa oeste norte-americana, em direção ao Oceano Pacífico. São eles: Canadá, México, Chile, Peru, Japão, Austrália, Nova Zelândia, Malásia, Cingapura, Vietnã e Brunei. Apesar de não se constituir enquanto bloco econômico, a iniciativa contempla o potencial econômico de 40% do PIB mundial. Ainda que não conte com a participação de gigantes como Índia, China ou Rússia, o mercado do TPP pode ser avaliado pelos 800 milhões de habitantes de seus países.

TPP e o mundo multipolar.

Um diferencial significativo em relação aos acordos congêneres construídos até os dias de hoje refere-se ao poder concedido às grandes corporações multinacionais nas soluções de questões e pendências. Ao contrário do que ocorre atualmente, o setor privado vai ter o mesmo poder conferido aos Estados nacionais na condição de atores e interlocutores nos litígios e nos processos decisórios. Se imaginarmos o poder de fogo dos gigantes dos negócios globais, veremos que muitas das vezes são superiores à dimensão econômica de muitos países. O risco estratégico de se oferecer tamanho poder ao capital nas relações diplomáticas é o retrocesso na mediação e a imposição da lógica explícita do lucro nas negociações internacionais.

O surgimento de tal iniciativa diplomática ocorre num momento em que a cena mundial está marcada pela falta de inciativa consolidada no universo do comércio entre as nações. Desde o fim do antigo bloco do socialismo, paradoxalmente observa-se uma queda paulatina da supremacia exercida pelos Estados Unidos na dinâmica de acumulação global. A superação do mundo bipolar deu origem a um quadro de incerteza e instabilidade, mas com a marca inequívoca da multipolaridade.

Além da trajetória de consolidação do poderio chinês, assistiu-se ao fortalecimento de iniciativas e de blocos regionais, um pouco na sequência da União Européia. Assim foi com o MERCOSUL, com o NAFTA, com os diversos arranjos na África, na Ásia e no Oriente, além da falida tentativa de constituição da ALCA. A experiência mais recente dos BRICS também se soma a esse conjunto amplo de busca de saídas que envolva alguma forma de articulação diplomática e comercial.

EUA passam ao largo da OMC.

Tendo em vista as dificuldades de fazer valer plenamente seu ponto de vista no interior da Organização Mundial do Comércio (OMC), os Estados Unidos tentam várias iniciativas por outras vias. É o caso desse arranjo voltado para o Pacífico, que passa ao largo da União Européia, da África e da China, mas busca uma rearticulação econômico-internacional pelas beiradas, envolvendo um conjunto de países tão díspares quanto distantes.

A constituição de uma organização que se imponha como reguladora das questões relativas ao comércio internacional é um processo longo e de difícil manejo. A própria história da OMC revela tal processo. Desde os tempos em que se tratava apenas de um Acordo Geral de Comércio e Tarifas (GATT) em 1947 até a sua conformação institucional em organismo multilateral do sistema das Nações Unidas em 1995, a realidade do comércio internacional também passou por grandes mudanças. As nações mais desenvolvidas tentam impor aos demais seus interesses em avançar para a área de serviços e propriedade intelectual, uma vez que as querelas envolvendo bens primários ou manufaturas de baixo valor não é mais o centro de suas preocupações. Por outro lado, os países em desenvolvimento pressionam em sentido contrário e busca influir em um modelo que contemple também seus interesses.

Desde as articulações iniciais da Roda Uruguai e a constituição dos TRIPS (acordo envolvendo direitos autorais), a necessária cadência diplomática da OMC não acompanha o ritmo frenético das inovações tecnológicas e das mudanças do perfil da acumulação em escala global. Restam, portanto, várias pendências em setores considerados estratégicos: armamentos, medicamentos, informática, setor financeiro, recursos naturais, entre outros. Os Estados Unidos tentam utilizar o TPP como laboratório para tais avanços sobre os países em desenvolvimento, buscando criar a diplomacia do fato consumado para as etapas a negociar no futuro.

As críticas de nosso liberalismo de botequim.

Um aspecto que chama a atenção é que a crítica liberalóide em nossas terras ainda continua a levantar sua voz e acusar o governo brasileiro de suposta omissão também nesse assunto. De acordo com essa interpretação, estaríamos perdendo o bonde da História outra vez. Ou seja, a mesma lenga-lenga dos tempos da rendição subserviente ao poderio norte-americano, em sua tentativa de construir uma área de livre comércio aqui nas Américas. Com a mudança de orientação diplomática a partir de 2003, o Itamaraty contribuiu de forma decisiva para que não fosse adiante o projeto ianque em torno da ALCA.

Com isso, a ambição da Casa Branca acabou tendo que se resumir mesmo aos parceiros vizinhos na porção norte em torno da NAFTA, bem como impulsionando um conjunto de iniciativas de acordos bilaterais com os países do centro e do sul do continente. Já que não lograram constituir uma área continental, passaram a tentar sabotar os arranjos regionais em torno da América do Sul.

A alternativa apresentada pelos nossos defensores de um falso liberalismo de botequim não resiste a qualquer avaliação mais sensata e muito menos à realidade dos fatos. Buscando se equilibrar ainda nas ondas da liberalização econômica incondicional, os representantes da ortodoxia fingem acreditar na velha história das oportunidades trazidas pela abertura dos portos e nas benesses que seriam trazidas pela sacrossanta exposição às leis de mercado em escala internacional. Tudo muito simples em um mundo tranquilo e cor de rosa.

Ora, nem mesmo os países que se dizem propagadores da doutrina do liberalismo econômico conseguem praticá-lo em seus próprios espaços econômicos, em especial durante os momentos de crise. Os Estados Unidos e a União Européia, por exemplo, são exemplos concretos de práticas protecionistas por décadas e têm sofrido, inclusive, derrotas em instâncias da OMC, em ações levadas a cabo pelo Brasil. Podemos não aceitar que eles ajam assim, mas devemos compreender. Afinal, a obrigação de um Estado é defender os interesses de seus cidadãos e/ou empresas. Isso significa proteger seus empregos e sua renda. Ou seja, tudo aquilo que nossos teóricos livre-mercadistas não aceitam que façamos em causa própria.

Aderir ao TPP é rendição incondicional.

Aderir a esse tipo de protocolo sem a possibilidade de defender seus próprios interesses econômicos é um verdadeiro crime de lesa pátria. Basta ver o que tem acontecido com a sociedade brasileira ao longo dos últimos anos, desde que o Plano Collor resolveu abrir as porteiras sem nenhum mecanismo de transição que assegurasse os interesses nacionais. O processo de desindustrialização tem início ali e foi aprofundado a partir de 1994, com a irresponsável trajetória da política de sobrevalorização cambial.

Nossa indústria não apresenta condições de competir com a deslealdade de condições das exportações provenientes da China, por exemplo. E fomos perdendo nossa capacidade industrial instalada. Voltamos ao modelo clássico do pós-colonialismo dependente. Excelentes exportadores de bens primários de baixo valor agregado e cordiais importadores de bens de maior valor agregado, os manufaturados. Ou seja, apresentamos um déficit estrutural de transferência de nossa riqueza para o exterior.

E a desindustrialização por nossas terras não foi acompanhada pelo crescimento correspondente dos serviços de elevado conteúdo tecnológico, como aconteceu nos países desenvolvidos. Estimulamos toda a cadeia do agronegócio exportador e nos especializamos em serviços de baixo valor agregado e de baixa qualidade, como o setor de telemarketing. Assim, em termos de capacidade econômica instalada e em condições de acompanhar as tendências da vanguarda, regredimos algumas décadas.

E justamente esse é um dos objetivos centrais desse acordo TPP. Incluir a economia do conhecimento no rol da liberalização radical do comércio internacional. E aqui entram os serviços de alta tecnologia de hoje e do futuro, como os processos e as patentes envolvidas em telecomunicações, informática, mundo virtual, nanotecnologia, biotecnologia, economia da natureza e tantas outras.

No entanto, as dificuldades impostas pelos Estados Unidos são tantas no âmbito desse rascunho de TPP que os próprios países signatários enfrentarão dificuldades para votar o acordo em seus respectivos legislativos. Isso indica que o Brasil não perdeu nada pela ausência individual no processo constitutivo do bloco.

Isso não significa que tudo seja um mar de rosas nas negociações atuais envolvendo o MERCOSUL, os BRICS e outros arranjos dos quais participamos. Porém, abrir mão dessas conquistas para entrar de forma isolada em uma aventura transpacífica, com uma posição subalterna frente aos interesses dos norte-americanos, não parece ser uma alternativa compensadora.

* Paulo Kliass é doutor em Economia pela Universidade de Paris 10 e Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal. 


Foto:  United Nations Photo

Quem é Augusto Nardes, ministro que recomendou rejeitar as contas da Presidente Dilma?

De vereador do partido da ditadura a réu no Supremo Tribunal Federal: eis sua extensa ficha corrida. Tire suas próprias conclusões...



por Patricia Faermann

Está nas mãos do Ministério Público Federal do Distrito Federal o relatório produzido por investigadores da Operação Zelotes que apontam indícios de que Augusto Nardes, o ministro do Tribunal de Contas da União, recebeu R$ 1,6 milhão de vantagem no escândalo do Carf. O conselho vinculado ao Ministério da Fazenda é encarregado de julgar recursos contra multas aplicadas pela Receita Federal, e a Operação investiga possíveis fraudes para comprar decisões do Carf.


Nardes teria recebido a quantia da firma de consultoria SGR, uma das principais implicadas no esquema de corrupção. Ele é suspeito porque foi sócio, até 2005, da Planalto Soluções e Negócios, registrada em nome de seu sobrinho, Carlos Juliano. Por meio dessa empresa, receberam pagamentos da SGR, que teria corrompido conselheiros do Carf para favorecer empresas que discutiam multas no órgão.


Os pagamentos, no valor total de R$ 2,6 milhões, teriam ocorrido entre dezembro de 2011 e janeiro de 2012, quando Nardes já era ministro do TCU. Atualmente, a investigação que tramitava na 10ª Vara Federal de Brasília foi remetida ao MPF/DF para possível encaminhamento ao Supremo Tribunal Federal (STF), corte responsável pelo julgamento de quem tem foro privilegiado, como é o caso do ministro.


Não é a primeira passagem de Nardes pela Suprema Corte. Tampouco a primeira vez que é investigado.


Histórico


João Augusto Ribeiro Nardes, gaúcho e produtor rural de Santo Ângelo, iniciou sua carreira política aos 21 anos, quando se tornou vereador pelo partido do governo militar, a partir do golpe de 64, o ARENA. Desde então, passou a deputado estadual pelo PDS, sigla sucessora do ARENA, em 1986, e já em democracia vigente no Brasil, 1990, foi reeleito pelo PPR, um dos braços do ARENA que tinha como liderança Paulo Maluf.


O partido se tornou PPB e, depois, o que até hoje é denominado como PP (Partido Progressista). Por essas siglas, Nardes foi deputado federal de 1994 a 2005, quando renunciou para assumir a cadeira no Tribunal de Contas da União (TCU).


Em sua primeira passagem como réu no Supremo Tribunal Federal (STF), Nardes foi processado em agosto de 2004 por crime eleitoral, peculato e concussão, por omissão de declaração em prestação de contas, quando concorreu à deputado federal, na Ação Penal 363 (http://bit.ly/1PjRYfA). Na época, o ministro relator Marco Aurélio acatou a sugestão do então procurador-geral da República, Claudio Fonteles, propondo um acordo com Augusto Nardes, por não possuir antecedentes criminais (http://bit.ly/1PjRS7M).

 

 
No acordo, o STF propôs a visita trimestral, durante dois anos, em escolas da rede pública de ensino do Distrito Federal, proferindo palestras sobre o sistema democrático e o processo eleitoral, e a doação para o programa do governo federal Fome Zero, no valor de R$ 1.000,00. (http://bit.ly/1OnM2TG) Nardes aceitou, sem, contudo, cumprir o acerto. Tentou fazer manobra, dizendo que concedeu as oito palestras em dois dias. O procurador denunciou ao STF a tentativa, exigindo que a pena fosse cumprida ao longo de dois anos, e não de dois dias. (http://bit.ly/1MhdDUW)

O envolvimento do ministro do TCU com o Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), mais especificamente com o esquema de controle e direcionamento de dinheiro público para as obras do Ministério dos Transportes, tem base no posto assumido por seu irmão, Cajar Nardes, em 2008, na gerência de projetos do Dnit.
 
O ex-diretor-geral afastado do órgão, Luiz Antônio Pagot, foi quem convidou Cajar para o cargo. Eles trabalharam juntos, quando o irmão de Augusto Nardes foi secretário de Estado no Mato Grosso, até 2005, no mandato do então governador Blairo Maggi, que depois migrou para o Senado pelo PR.
 
Ainda que revelada a intenção de tráfico de influência dos processos do Dnit no TCU, a chegada de Cajar ao órgão obrigou o TCU a repassar os processos de seu irmão para outro ministro, Raimundo Carreiro. À época, em resposta, Cajar negou o tráfico de influência. Já Augusto Nardes, que era presidente do TCU, disse que a nomeação do irmão não lhe trouxe constrangimento ou dano à sua imagem. (http://bit.ly/1jetcl7)
 
Quatro anos depois, a relação de Nardes com o DNIT é revelada nas suspeitas de que o ministro do TCU seria alvo de investigação específica da Operação Castelo de Areia, sobretudo por sua relação com o ex-diretor do órgão Luiz Antonio Pagot.
 
Uma ampla documentação de executivos da Camargo Correia foi apreendida pela Polícia Federal, levantando o nome de Augusto Nardes relacionado a propinas em obras públicas. No relatório final da operação, o delegado Otavio Margonari Russo anexou pelo menos dois documentos incidindo sobre Nardes, além de uma reportagem relatando negociatas com Pagot. (http://bit.ly/1L2vKfM)
 
O delegado anexou nos autos um dos casos relatando que as empresas envolvidas nas obras da Eclusa do Tucuruí teriam fechado um "compromisso" de R$ 500 mil com Pagot e com o PP, partido à época de Nardes, e acrescentou uma reportagem da Folha de S. Paulo de 2009. Nela, Nardes votava pela liberação de um aditivo de R$ 155 milhões para a Camargo Corrêa nessa construção. Nardes, entretanto, não poderia analisar e votar o aditivo do Dnit, por estar impedido. (http://bit.ly/1FZI1BY)
 
"Não é só à Obra da Eclusa de Tucuruí que o nome de Nardes aparece atrelado. Nardes é também o relator do acórdão n. 2185/2007, do Plenário do TCU, em que decide que o repasse da verba federal destinada ao Rodoanel deveria ser liberada para o Dnit e a Dersa e, consequentemente, à Camargo Corrêa, apesar das irregularidades apontadas pela equipe técnica do TCU", apontou, ainda, o relatório da PF.
 
No período, Nardes também negou as irregularidades e a anulação da Operação Castelo de Areia enterrou o episódio.

Foto: Lula Marques

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

'Aécio Neves é um elemento perigoso para a democracia brasileira'

'Aécio é uma pessoa dotada do sentimento de egoísmo, do poder pelo poder, de uma ambição absurda e que não se conforma pelos resultados ditados pelo povo'


por Helder Lima

São Paulo – Para o diretor acadêmico da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp), Aldo Fornazieri, a tentativa de impeachment da presidenta Dilma Rousseff é alimentada pelo candidato da oposição nas eleições de 2014. “É um inconformismo de Aécio Neves (PSDB-MG), que é uma pessoa aparentemente dotada do sentimento de egoísmo, do poder pelo poder, de uma ambição absurda, e uma pessoa que não se conforma pelos resultados ditados pelo povo. É um elemento perigoso para a democracia brasileira”, afirmou Fornazieri nesta quarta-feira (14), em entrevista à RBA.
 
Fornazieri destaca as duas frentes que sustentam a perspectiva de golpe: no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), onde os tucanos querem cassar a chapa Dilma-Temer, e na Câmara, com o processo de impeachment propriamente dito. Mas, para Fornazieri, esses questionamentos são superficiais. “Decorrem de uma luta pelo poder sem escrúpulos, na medida em que não existe um fundamento legal para ter um impeachment, e na medida em que o próprio TSE havia aprovado as contas da Dilma”.
 
Nesta entrevista, o acadêmico analisa também a fragilidade do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), cujas provas de corrupção são contundentes, e fala do papel do Superior Tribunal Federal (STF), que proibiu a doação de empresas para campanhas política. “O STF passou a legislar, embora de forma indesejável, porque quem deveria fazer uma reforma política é o Congresso, mas na medida em que o Congresso não funciona, virou uma casa de negociatas políticas e de tráfico político, o STF passa a legislar de certa forma ferindo o próprio principio republicano de separação de poderes. Infelizmente essa é a situação.”
 
Confira a íntegra da entrevista:
 
Quanto dessa crise pode estar vindo de uma manipulação midiática?
 
A crise atual tem alguns aspectos complexos. Em primeiro lugar, existe uma crise ética no Brasil por conta dos escândalos na Petrobras. Aprofundou-se na sociedade a ideia de que toda estrutura política é corrupta e de que os partidos não têm legitimidade, nem as instituições. Existe também uma crise política, que tem muito de artificial, porque é evidente que o governo Dilma cometeu erros, porém, a partir desses erros, a oposição, particularmente Aécio Neves (PSDB-MG), inconformado com a derrota, quer a presidência a qualquer custo. Ele está insuflando uma crise artificial.
 
Essa crise envolve dois movimentos. O primeiro é a ação do PSDB no TSE querendo cassar a chapa Dilma-Temer para ter uma nova eleição. O segundo é o processo de impeachment na Câmara dos Deputados. Essas questões são artificiais. E elas decorrem de uma luta pelo poder sem escrúpulos, na medida em que não existe um fundamento legal para ter um impeachment, e na medida em que o próprio TSE havia aprovado as contas da Dilma.
 
Junto de Aécio estão outros líderes da oposição, está o próprio Gilmar Mendes, que se tornou um conspirador, e aparentemente o próprio Augusto Nardes, do TCU, porque entendo que as questões das pedaladas fiscais são um problema que tem de ser corrigido, mas na medida em que FHC e Lula as praticaram, o TCU deveria ter feito um termo de ajustamento de conduta dizendo 'Olha, até agora vínhamos tolerando as pedaladas fiscais, mas de agora em diante não vamos mais tolerar'. E fazer com que o governo assumisse o compromisso de não praticar mais. Senão, você comete uma injustiça.
 
Então, por isso, há esses atores que estão criando uma crise artificial, que provoca instabilidade política e incertezas quanto ao futuro, com consequências graves na economia: empresas se endividam mais por conta da elevação da taxa de câmbio e têm de fechar diante de toda a incerteza. Isso vai criando desemprego.
 
Entendo que esses atores aí, Aécio Neves à frente da oposição, ministro Gilmar Mendes e Augusto Nardes estão provocando um desserviço ao Brasil. Estão conspirando não apenas contra o governo, mas contra o país, porque as consequências dessa crise política artificial na economia são graves, e quem mais perde é o povo, os trabalhadores.
 
Como o sr. vê a questão do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que vinha como paladino da moralidade, agora está em uma situação ruim, com as provas contra ele que surgiram na operação Lava Jato. Ele tem condição moral de continuar o processo de impeachment?
 
Condições morais ele não tem, mas existe uma cruzada moral imoralista. Lideres corruptos querem se apresentar como paladinos da moralidade, e o Eduardo Cunha é um desses. No entanto, ele tem a prerrogativa constitucional de dar encaminhamento a um pedido de impeachment.
 
E ali há setores da oposição e setores do governo que não se pronunciam a favor da retirada dele. Por exemplo, a própria bancada do PT, mais de 20 deputados assinaram o pedido de abertura de processo na comissão de ética, mas o líder do PT, Sibá Machado, disse que não vai se pronunciar pela saída do Cunha. Então, tem todo um jogo de negociatas, e Eduardo Cunha se aproveita disso para fazer barganhas junto ao governo e barganhas junto à oposição. Porque, no fundo, a única coisa que Cunha quer é salvar sua pele e seu mandato de presidente e parlamentar, que correm riscos porque houve uma flagrante violação do decoro parlamentar na medida em que ele mentiu na CPI da Petrobras. Declarou que não tinha contas no exterior e agora foi comprovado. Isso não é mais denúncia, isso é comprovação. O MP da Suíça comprovou que ele tinha contas naquele país.
 
Nesse cenário, as elites jogam contra os interesses do país; por exemplo, estão interessadas em mudar a lei de partilha do pré-sal, querendo entregar as riquezas para as multinacionais. Como o sr. vê isso?
 
Há um jogo de interesses. A política no Brasil, e com esses partidos que estão aí, tornou-se um grande negócio. Os partidos dependem de financiamento de campanha e os políticos ganham dinheiro, como se mostrou nessas negociatas da Petrobras. Isso vale tanto para os partidos do governo, como para a oposição.
 
Na medida em que a política se tornou um grande mercado de corrupção, esses interesses trafegam pela política. No impeachment, há interesses econômicos por trás. O fato é que a política brasileira precisa ter uma renovação radical, porque ela está em uma descrença completa. As instituições não estão legitimadas.
 
A presidência tem uma avaliação positiva de 10% e o Congresso também. Os partidos, 10%. Você vê que há uma deslegitimação das instituições. O dramático de tudo isso é que diante dessa crise artificial não se vê um movimento no sentido de fazer uma reforma política séria, de separar as negociatas. Quem é amigo hoje vira inimigo amanhã e vice-versa. A população fica sem referências políticas e morais diante da política que virou um sistema de degradação moral.
 
Mas o STF se manifestou contra o financiamento de campanha por empresas. Já em 2016, não será possível esse tipo de recurso para os candidatos. Como o sr. vê isso?
 
Acho positivo. O STF passou a legislar, embora de forma indesejável, porque quem deveria fazer uma reforma política é o Congresso, mas na medida em que o Congresso não funciona, virou uma casa de negociatas políticas e de tráfico político, o STF passa a legislar de certa forma ferindo o próprio princípio republicano de separação de poderes. Infelizmente, essa é a situação.
 
O STF, em grande medida, esta substituindo o Congresso no que diz respeito à legislação, particularmente a política e eleitoral. Infelizmente, o país está mergulhado nessa crise de não funcionalidade de suas instituições republicanas.
 
Por que o sr. acha que o país chegou a essa crise institucional?
 
Os motivos são variados e profundos. Desde o fato de que os partidos se acomodaram em um sistema de benefícios econômicos próprios, de administração de seus interesses, eles são financiados pelo setor empresarial, capturados pelo poder econômico e, por outro lado, também tem recursos do Estado. Então, os partidos viraram um sistema de negócios, pois capturam dinheiro do setor privado e capturam dinheiro do setor público.
 
Pelas denúncias você vê parentes de políticos financiados e assim por diante. A política virou um grande negócio. Enquanto não se fizer uma reforma política que bloqueie a mercantilização da política, vamos continuar nesse sistema.
 
E que medidas o sr. defenderia para complementar a proibição pelo STF do dinheiro de empresas nas campanhas?
 
Bom, vejo que o fato de se estabelecer a proibição do financiamento privado não necessariamente indica que não haverá caixa dois. Tudo indica que vai. Então, o que tem de fazer é punir. Aparentemente, começamos um mínimo sistema de punição das elites por meio da Lava Jato. Tem vários empresários na cadeia e alguns políticos também. É preciso abrir as portas das cadeias para os políticos corruptos entrarem. Assim, você vai acabar com a corrupção alimentada pela impunidade.
 
Tem um artigo seu no portal GGN no qual o sr. fala que a crise se estende até 2018...
 
Não tem perspectiva. Continuando a Dilma, ela será um governo fraco e substituindo, aparentemente a crise se agrava. Então, digo que a Dilma é um mal menor. Tirá-la agravaria a crise. Acho que os setores democráticos não aceitariam um golpe, pois o impeachment, no meu ponto de vista, agora é um golpe.
 
Na época da UDN, ela era chamada de vivandeira dos quartéis, pois ela vivia chorando na frente dos quartéis pedindo para que os militares interviessem. E agora temos as vivandeiras dos tribunais. Aécio e sua turma são isso. Querem que os tribunais substituam a vontade do povo que foi sacramentada nas urnas.
 
O sr. concorda que estamos vivendo o terceiro turno há um ano?
 
Nem é terceiro turno, pois é um golpe. É um inconformismo de Aécio Neves que é uma pessoa aparentemente dotada do sentimento de egoísmo, do poder pelo poder, de uma ambição absurda, e de uma pessoa que não se conforma pelos resultados ditados pelo povo. É um elemento perigoso para a democracia brasileira.
 
Nessa crise institucional, não estaríamos vivendo uma falta de liderança?
 
Com certeza, um dos aspectos da crise atual é a completa falta de liderança. Por que existe essa falta de liderança? Em primeiro lugar porque os partidos estão degradados. Eles brigam não por interesses do povo, mas por interesses próprios. O interesse particular dos partidos e dos políticos foi posto acima do interesse do bem público. Só há lideranças autênticas quando elas lutam pelo bem público.
 
Então, esse é o elemento base. A corrupção de princípios, a corrupção financeira e moral, elas degradam o sistema e impedem o surgimento de novas lideranças.
 
Existe um divórcio entre a sociedade e a representação política?
 
Com certeza, a sociedade não se reconhece nesse sistema político que está aí. A sociedade não se reconhece nos partidos, nos governantes, no Congresso e, portanto, essa crise de legitimidade é uma crise de longo prazo, cuja solução é difícil. Difícil, também, pois não vemos o surgimento de um político virtuoso que saiba conduzir o povo em outra direção, que saiba dar um rumo para a situação política brasileira degradada pela crise moral.
 
Com o Congresso discutindo retrocessos como o projeto de terceirização, entre outros, o Brasil deixa de fazer as reformas necessárias, como por exemplo a regulação da mídia e a reforma tributária. Essas reformas estruturais estão descartadas para os próximos anos?
 
Acho que sim. Esse Congresso é conservador e ele não se dispõe. Nem quando tinha o peso da liderança de Lula se fizeram reformas profundas, com um Congresso até mais progressista do que o que está aí. Faltou iniciativa política. Nesse sentido, vejo que o PT tem bastante culpa no cartório, pois não fez a batalha pelas reformas que são estruturantes para a redução da desigualdade no país.
 
Isso mostra que não é possível governar para todos?
 
Você tem de governar para todos, mas guiado pelo princípio da Justiça. O governante é do país, da nação, mas ele tem de guiar suas ações pelo princípio da Justiça. O erro que o governo Dilma cometeu foi a tentativa de criar um governo de um projeto, de uma parte. Não se diz isso, o governante é de toda a nação. No entanto, o que tem de guiar é o princípio da Justiça.
 
Então, há uma confusão completa do que significa governar, ou governar com justiça e assim por diante. Do meu ponto de vista, a condução que o governo vem tendo do ponto de vista político é medíocre, tanto que o país está mergulhado em uma situação ruim.
 
O sr. vê semelhanças no que se passa hoje e na crise política enfrentada por Getúlio Vargas, que o levou ao suicídio?
 
Nenhuma. As circunstâncias são completamente diferentes. A crise que está aí foi criada por fatores diferentes, e nesse sentido não dá para fazer uma comparação. Naquela época tinha guerra fria, hoje não tem, existiam determinados fatores conjunturais do país diferentes do que há agora. A esquerda ainda tinha moral, e hoje ela esta enfrentando uma profunda crise. Está na defensiva, então vivemos uma situação diferente.
 
Você tem alguma proposta para recuperar a legitimidade do sistema político?
 
Em primeiro lugar, teríamos de ter partidos verdadeiros, vinculados aos interesses sociais. Não temos esses partidos. A reestruturação partidária e política não é a saída. Então estamos quase em um beco sem saída, pois a crise é a longo prazo e não vejo capacidade nos partidos e líderes que aí estão para fazer uma mudança dessa envergadura.
 
Mas enquanto a crise política é artificial, a econômica é real?
 
É real, pois pessoas estão perdendo empregos, a inflação está alta, empresas estão fechando, se endividando. O consumo cai. Esta é uma crise real, mas ela vem sendo potencializada pela crise política.
 
Do ponto de vista da economia, o ajuste fiscal poderia ter sido evitado?
 
Não, ele é necessário. É preciso entender isso, e parte da esquerda não o faz. É preciso, pois a dívida pública está aumentando muito. Se o país não contornar esse crescimento, vamos entrar em uma situação de descontrole e a situação vai ficar pior. Culpar Levy por essa situação me parece um absurdo. O que tem de se discutir no ajuste é quem paga o ajuste fiscal. No entanto, houve uma degradação fiscal do país no mandato de Dilma.
 
Os empresários que tiveram grandes desonerações?
 
Sim, mas foram dadas pelo governo. O governo errou no trato da energia, errou nas desonerações, errou na concessão de bilhões em empréstimos através do BNDES e quem está pagando essa conta é o povo. Isso não foi feito pelo Levy.
 
Como o sr. vê a campanha da Fiesp contra impostos e contra a CPMF?
 
O fato é que em parte, os empresários foram beneficiados, e agora a sociedade sempre é contra o aumento de impostos. Os trabalhadores também são. Só que o peso maior desse ajuste está sendo pago pelos trabalhadores, agora esse não é um problema do Levy.


Foto: Lula Marques